quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Suzi Quatro "Unzipped"


No final do do passado comprei na Amazon, pela bagatela de R$ 15,54 (como eu vivi tanto tempo sem me interessar por essa loja maravilhosa?), a autobiografia de Suzi Quatro, "Unzipped". Um livro bem legal, principalmente considerando-se que ela escreveu sem ajuda de nenhum tipo de escritor profissional.

"Unzipped", autobiografia que Suzi Quatro escreveu em 2007 (e atualizou em 2013) é construída como um grande diálogo entre duas pessoas que, na verdade são uma só: "Little Suzi From Detroit" (ainda jovem, antes da fama) e Suzi Quatro. Suas conjecturas e muitas lembranças trazem consigo uma grande autocrítica bem humorada, montando uma narrativa bem completa: traz muitos detalhes de sua infância numa família grande de pais imigrantes (o pai italiano, a mãe húngara) e fortemente católica, suas inseguranças por ser "a filha do meio" (o que, de acordo com o que ela sentia, a fazia viver "esquecida" entre os irmãos), as traquinagens típicas de criança, o amor por música  (principalmente Elvis), o desenvolvimento na adolescência, o primeiro namorado, a criação da banda feminina "Pleasure Seekers" junto com irmãs e amigas, o abandono dos estudos aos 14 anos, a procura pelo sucesso, os vários shows e a crescente fama em sua terra natal, Detroit... 

O caso com um produtor musical (que ela chama sempre apenas pelas iniciais "DC") que na época era casado, a gravidez inesperada que a levou a um aborto com apenas 18 anos, as constantes mudanças na formação da banda e a subsequente alteração de estilo e nome, algo que não surtiu grandes efeitos a longo prazo, mas que coincidiu com sua descoberta pelo produtor Mickie Most (que se interessou apenas por ela, a baixista Suzi - que se refere a si mesma nesse período como "Little Suzi from Detroit" deixando de lado o resto da banda, algo que causou ressentimentos não resolvidos entre os membros durante anos) e a ida para a Inglaterra conquistar uma carreira de sucesso... os tempos sombrios em que viveu num limbo de solidão e depressão sem conseguir emplacar nenhum sucesso em sua carreira solo, levando-a a quase desistir de seus sonhos e voltar para os Estados Unidos...

O cara que apareceu como candidato a guitarrista de sua banda de apoio que acabou se tornando seu primeiro marido (Len Tuckey), a primeira grande turnê que fez acompanhando as maravilhosas bandas ♥ Thin Lizzy e Slade ♥, o primeiro grande sucesso com "Can the Can" seguido por "48 Crash" (uma parte que achei super fofa: quando Can the Can atingiu a primeira posição na parada de Top Of The Pops, Phil Lynott e todos do Thin Lizzy enviaram um telegrama parabenizando-a ♥), os shows e turnês se tornando maiores e mais constantes, as várias aparições em paradas de sucessos britânicas, o inesperado sucesso em lugares como Japão e Austrália (onde tem seus fãs mais fiéis até hoje), as bebedeiras e farras com a banda e amigos, a fã maluca que a seguia por hotéis e ia em vários shows, mais conhecida como Joan Jett... o constante medo de voar que a fazia tomar um litro de whisky antes de sequer pisar no avião (haha)... os rumores de ter ficado com caras como Alice Cooper, que ela mesma desmente e conta sua versão dos fatos (Alice e ela são amigos desde os tempos de Detroit); o processo de criação de cada disco, sua relação sempre complicada com a família que deixou nos EUA... a compra de sua primeira casa (com os espíritos que ela acredita que morem lá, os quais têm até nomes específicos - o que mostra muito do seu lado místico/espiritualista, apesar de toda a sua base católica); o desdobramento de sua carreira, dessa vez como atriz no seriado "Happy Days", algo que a deixou com maior visibilidade em sua terra natal...

Seu amadurecimento ao longo dos anos, a batalha para engravidar (seguida por mais um aborto, dessa vez espontâneo), sua primeira filha, Laura... seu distanciamento dos palcos e gravações, as participações em variados programas de TV para manter seu nome na mídia; o nascimento de seu segundo filho, Richard... o crescente desgaste de seu casamento com Len, em grande parte causado pela mudança de interesses de Suzi, que passou a dedicar mais seu tempo em atividades como escrever e atuar e menos voltada à música (algo que acabou de tornando o maior - e talvez único -  assunto em comum entre eles)... seu papel como mãe, esposa e artista se misturando e causando crises de identidade, a inevitável separação, que causou desgastes familiares... os problemas de saúde seguidos da morte de sua mãe, o nascimento de vários sobrinhos, os problemas com os filhos (especialmente a filha)... sua volta aos palcos...

O tempo tresloucado de "solteirice" depois de tantos anos casada (um grande mistério para mim: por que essas mulheres depois que se separam ficam tão malucas, como se nunca tivessem visto um homem antes na vida?), o novo affair que a quase fez se casar com pouquíssimos meses de namoro... seguido pela inesperada paixão pelo alemão Rainer Haas, antigo conhecido que lhe agendava shows e que acabou se transformando em seu segundo marido...

A  reaproximação com o pai,  o crescimento dos filhos (com a saída de sua filha de casa aos 16 anos e seu retorno aos 18, trazendo consigo Amy, primeira e única neta de Suzi)...

As novas composições, a participação num reality show (que obviamente lhe rendeu arrependimento, hihihi), as viagens familiares, os novos planos na carreira... e a reconciliação consigo mesma. Little Suzi from Detroit, enfim encontra-se com sua atual pessoa (mesmo aceitando que isso seria ficção, hehe), fechando sua história admitindo que a mundialmente conhecida Suzi Quatro não seria quem é hoje se não fosse por sua parcela juvenil.
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Gostei muito de acompanhar uma vida tão movimentada e cheia de detalhes. Me identifiquei em muitas partes, principalmente relacionadas à personalidade aberta de Suzi (incapaz de manter a boca fechada, como ela mesma disse), sua memória de elefante, assim como também suas inseguranças e instabilidades.
Sem contar o fato de que ela faz aniversário uma semana antes de mim e teve uma tia chamada Izabella (!). Para quem é fã dessa baixista ou gosta de (auto)biografias, esse livro vale muito a pena.

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